Competências Essenciais e Lifelong Learning: o que o profissional precisa saber e fazer
- Lucia Cuque

- 19 de fev. de 2020
- 6 min de leitura
Atualizado: 18 de out. de 2021

Na era das tecnologias voltadas para a automação e troca de dados, as tarefas e a natureza do trabalho foram definitivamente alteradas. Os profissionais precisam de novas competências, para atuar nesse novo cenário, que exige uma constante adaptação a novos métodos, organizações e ferramentas.
Segundo o European Centre for the Development of Vocational Training (Cedefop), os novos empregos demandam uma combinação entre as competências digitais, comportamentais e sociais.
O trabalho possui um caráter cada vez mais coletivo e requer, do profissional, especial capacidade para tomar decisões, fazer planejamento, buscar rotas alternativas, entender as dificuldades, e, se necessário, mudar a estratégia.
O desempenho do profissional, por sua vez, depende de sua capacidade em comunicar-se; cooperar; adaptar-se; ter iniciativa; aprender; e usar eficientemente a inteligência, para trazer inovações para a organização.
A identificação das competências essenciais tem sido a preocupação de diversos autores, universidades, órgãos e institutos internacionais. Variados quadros de referência sobre o tema foram criados, dentre eles: Battelle for Kids; European Commission; International Society for Technology in Education (ISTE); Organization for Economic Co-Operation Development (OECD); O*NET Resource Center; Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco); World Economic Forum (WEF).
Esses quadros de referência, de maneira geral, demonstram preocupação com a necessidade de a pessoa adaptar-se às mudanças, lidar com a complexidade, e responder a ambientes digitais e tecnológicos.
O que a União Europeia definiu como competências essenciais?
Em 2006, foi publicada a primeira versão do Quadro de Referência Europeu de Competências Essenciais para a Aprendizagem ao Longo da Vida (lifelong learning), que envolvem uma combinação dinâmica de conhecimentos, aptidões e atitudes a ser desenvolvida pelos cidadãos.
As competências recomendadas para manter a realização pessoal, empregabilidade e inclusão social, nessa primeira versão do Quadro de Referência foram: comunicação na língua materna; comunicação em línguas estrangeiras; competência matemática e competências básicas em ciências e tecnologia; competência digital; aprender a aprender; competências sociais e cívicas; espírito de iniciativa e espírito empresarial; e sensibilidade e expressão culturais.
Em decorrência das transformações da sociedade e economia, mudaram as competências que os cidadãos e profissionais precisavam apresentar e desenvolver, para se manter ativos na sociedade. O Conselho da União Europeia lançou, então, em 2018, a segunda versão do Quadro de Referência.
Abaixo, estão relacionadas as competências essenciais indicadas na atual versão do Quadro de Referência. Um resumo das capacidades, habilidades e atitudes, que compõem cada competência está apresentado na sequência.
1. Competências de literacia (alfabetização e letramento digital)
São as capacidades de identificar, compreender, expressar, criar e interpretar conceitos, sentimentos, fatos e opiniões, tanto oralmente como por escrito, utilizando como apoio ferramentas visuais, auditivas e materiais digitais, em todas as disciplinas e contextos. Envolve a capacidade de se comunicar de forma criativa.
2. Competências multilíngues
São as capacidades de se comunicar em várias línguas, de maneira adequada e eficaz; de compreender as mensagens faladas; de iniciar, manter e concluir conversas; ler, compreender e redigir textos com diferentes níveis de proficiência em diferentes línguas. Essas competências requerem o conhecimento do vocabulário e da gramática funcional de diferentes línguas, etc.
3. Competências matemáticas e no domínio das ciências, da tecnologia e engenharia
O conhecimento necessário em matemática pressupõe um conhecimento sólido dos números, das medidas e estruturas, das operações fundamentais e representações matemáticas de base. Espera-se uma atitude de respeito pela verdade e vontade de encontrar argumentos, além de avaliar a respectiva validade.
Para as ciências, a tecnologia e a engenharia, os conhecimentos essenciais compreendem os princípios básicos do mundo natural, os conceitos, as teorias, os princípios e métodos científicos fundamentais, a tecnologia e os produtos e processos tecnológicos, dentre outros. Essa competência inclui uma atitude de curiosidade e juízo crítico, a preocupação com questões éticas e a adesão à segurança e sustentabilidade ambientais.
4. Competências digitais
Envolvem a adesão e a utilização de tecnologias digitais no trabalho, na aprendizagem e participação na sociedade. Capacidade de acesso, utilização, filtragem, avaliação, criação, programação e compartilhamento de conteúdos digitais. Capacidade de gerir e proteger as informações, os dados, conteúdos e as identidades digitais, etc. A pessoa precisa adotar uma reflexão crítica e ter curiosidade, além de uma abordagem ética, segura e responsável da utilização dessas ferramentas.
5. Competências pessoais, sociais e capacidade de “aprender a aprender”
Abarcam a capacidade de refletir sobre si próprio; gerir o tempo e a informação; colaborar; manter a resiliência; e gerir a sua própria aprendizagem e carreira. Compreendem a capacidade de lidar com a incerteza e complexidade; aprender a aprender; cuidar do próprio bem-estar físico e emocional; sentir empatia; e gerir conflitos num contexto inclusivo e favorável.
6. Competências de cidadania
Abrangem a capacidade de agir como cidadão responsável e participar plenamente na vida social e cívica, com base na compreensão dos conceitos e estruturas sociais, econômicos, jurídicos e políticos. Incluem a capacidade de interagir com os outros; ter espírito crítico; capacidade de resolução de problemas; desenvolver argumentos; além de participar de forma construtiva em atividades da comunidade.
7. Competências de empreendedorismo
Referem-se à capacidade de aproveitar oportunidades e ideias e transformá-las em valores para os outros. Encontram-se na criatividade, no pensamento crítico e na resolução de problemas, no espírito de iniciativa, na perseverança e capacidade para trabalhar em equipe a fim de planejar e gerir projetos.
8. Competências de sensibilidade e expressão cultural
Requerem a compreensão e o respeito pela expressão e comunicação criativa de ideias em diferentes culturas. Trata-se de compreender, desenvolver e expressar ideias próprias, bem como um sentido do papel desempenhado na sociedade.
Lifelong learning e desenvolvimento das competências – algumas considerações
A capacidade de inovação das empresas não reside mais prioritariamente em seu potencial industrial ou nas despesas com pesquisa e desenvolvimento, mas do investimento realizado nas competências de seus colaboradores.
As competências são naturalmente desenvolvidas em uma perspectiva de aprendizagem ao longo da vida, tendo o seu início na primeira infância e ocorrendo até a vida adulta. O desenvolvimento das competências ocorre por meio das aprendizagens formal, não formal e informal, em todos os contextos, incluindo família, escola, trabalho, vizinhança e outras comunidades.
As empresas, para inovar, precisam criar uma cultura de aprendizado ao longo da vida, ou seja, um mindset, ou cultura de crescimento nas organizações. Fazer uso da comunicação, o gerenciamento de mudanças e a valorização do aprendizado são ações que podem contribuir com essa estratégia.
A educação corporativa, em parceria com a área de desenvolvimento organizacional, poderá fomentar o desenvolvimento das competências nos profissionais, por meio de um processo que contemple:
Mapeamento das competências necessárias para a organização, a ser realizado por uma equipe multidisciplinar composta, por exemplo, por: stakeholders; clientes internos e externos; os próprios profissionais; a área de RH; etc.;
Avaliação das competências, de maneira a permitir que os profissionais identifiquem os seus pontos fortes e quaisquer necessidades de aperfeiçoamento e qualificação;
Identificação dos caminhos para a requalificação dos profissionais cujo trabalho está sendo transformado pela automação;
Desenho de programas de aprendizado e desenvolvimento personalizados, de maneira que as necessidades identificadas na avaliação possam ser atendidas;
Desenvolvimento de um mix de aprendizado adequado para a organização;
Validação e reconhecimento das competências adquiridas a partir de programas formais, atividades informais ou não formais de aprendizagem;
Revisões periódicas de competências e programas de qualificação e desenvolvimento.
O profissional deve manter-se atualizado sobre as tendências do mercado de trabalho e os fatores que impactam o seu segmento de atuação, refletindo sobre como esses aspectos podem afetar o necessário grupo de conhecimentos, competências e capacidades do profissional.
Fazer constante autorreflexão sobre quais competências precisam ser adquiridas ou lapidadas pode ajudar o profissional a antecipar as suas necessidades de aperfeiçoamento ou qualificação. Pode, também, fazê-lo refletir e decidir sobre novos rumos na carreira profissional.
Referências
CEDEFOP. European Centre for the Development of Vocational Training. People, machines, robots and skills. Technological unemployment is a recurring theme, but joblessness in the digital age will depend on human, not artificial, intelligence, 2017. Disponível em: https://www.cedefop.europa.eu/en/publications-and-resources/publications/9121. Acesso em: 11 fev. 2020.
CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA. Proposta de recomendação do conselho de 22 de maio de 2018 sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida. Jornal Oficial da União Europeia, (2018/C 189/01). 2018. Disponível em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:32018H0604(01)&from=EN. Acesso em: 13 fev. 2020.
EUROPEAN COUNCIL. Presidency conclusions - Stockholm European Council, 23 and 24 March 2001. Disponível em:
https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/PRES_01_900. Acesso em: 14 fev. 2020.
PARLAMENTO EUROPEU. Recomendação do Parlamento Europeu e do Conselho sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida. Jornal Oficial da União Europeia, L, v. 394, p. 13, 2006. Disponível em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:32006H0962&from=EN. Acesso em: 11 fev. 2020.
WOLRD ECONOMIC FORUM. HR 4.0: Six Imperatives for the Workforce of the Future. 2019. Disponível em: http://www3.weforum.org/docs/WEF_NES_Whitepaper_HR4.0.pdf. Acesso em: 14 fev. 2020.




Comentários