Competências essenciais segundo stakeholders da agricultura digital


Introdução
Com o crescimento da população mundial, a agricultura enfrenta o desafio de ampliar a produção de alimentos enquanto minimiza impactos ambientais e repercussões socioeconômicas. Para mitigar esses desafios, aponta-se que a mecanização agrícola — que engloba a automação e a agricultura de precisão (AP) — possui o potencial de transformar profundamente os sistemas produtivos.
O aprimoramento da gestão agrícola fundamentada nos princípios da AP integra o conceito de Agricultura 4.0. A agricultura digital (AD), por sua vez, alicerça-se na Agricultura 4.0 e destaca-se pelo emprego intensivo de tecnologias na produção de alimentos. A essência da AD reside na geração de valor a partir de dados, na expansão da automação agrícola e na estruturação de inteligência aplicável à tomada de decisão nos processos produtivos.
Tanto a digitalização quanto a automação dos processos na agricultura têm alterado significativamente a natureza do trabalho, bem como os requisitos, as habilidades e as competências demandadas dos profissionais da área. Nesse contexto, agricultores, acadêmicos e especialistas relatam barreiras que dificultam o avanço da AD no país, destacando-se: a escassez e o elevado custo de mão de obra qualificada e especializada; deficiências na formação educacional; a carência de habilidades digitais; a ausência de competências voltadas para a AD nos currículos dos ensinos agrícola, técnico e superior; as dificuldades de acesso à capacitação em tecnologias agrícolas; e os custos associados à contratação de prestadores de serviços, levando os produtores rurais a buscarem alternativas para mitigar tais entraves.
Diante desse cenário, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), juntamente com outros pesquisadores, recomenda a reavaliação dos currículos em universidades e cursos de capacitação profissional, medida considerada imprescindível para assegurar que produtores atuais e futuras gerações desenvolvam as competências necessárias para aproveitar as oportunidades proporcionadas pelas inovações no campo.
Mas, afinal, quais são as competências imprescindíveis para atuar na AD, segundo diferentes stakeholders do setor no Brasil?
Para mapear as competências exigidas pelo setor, utilizam-se técnicas de pesquisa social amplamente recomendadas, tais como a análise documental, as entrevistas e os grupos focais.
Neste artigo, apresentam-se parte dos dados de uma ampla pesquisa de campo realizada entre 2023 e 2025, a qual contemplou entrevistas e grupos focais com stakeholders da AD, com o objetivo de identificar as competências necessárias para atuar no setor segundo a perspectiva desses profissionais.
O que significa “competência” e “ser competente”?
O conceito de competência adotado neste estudo compreende o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes (CHA) que capacita o indivíduo a desempenhar suas atividades de trabalho. A Figura 1 ilustra a definição de cada componente dessa matriz.
Figura 1 – Definição de conhecimentos, habilidades e atitudes

O profissional competente é definido como aquele que "sabe agir", mobilizando e combinando sinergicamente atributos individuais (conhecimentos, habilidades e atitudes) frente às exigências específicas do contexto para realizar uma tarefa ou desenvolver uma solução. Desse modo, a competência transcende a mera repetição de fórmulas prontas, exigindo a capacidade de adaptar e implementar conhecimentos e condutas a cada nova situação, demandando adaptabilidade e criatividade para atuar em cenários dinâmicos.
Planejamento da pesquisa de campo
Elaborou-se um conjunto único de questões estruturado para aplicação em entrevistas e grupos focais. A validação desse roteiro foi conduzida por três especialistas representantes de diferentes stakeholders da AD.
Os tópicos abordados contemplaram as tendências do setor agrícola brasileiro, os principais desafios para a implantação da AD no país, a percepção sobre os impactos da tecnologia no mercado de trabalho, a identificação das competências requeridas para a atuação profissional no setor e o apontamento das deficiências de competências ainda recorrentes no mercado.
Embora o instrumento contivesse duas indagações específicas direcionadas ao tema das competências, procedeu-se à análise transversal de todo o conteúdo gerado nas interações. Constatou-se que diversos participantes manifestaram conhecimentos, habilidades e atitudes essenciais para a AD em resposta a outras perguntas do roteiro, independentemente de questionamentos diretos. Tal abordagem metodológica possibilitou uma perspectiva mais fidedigna e espontânea acerca das competências mais relevantes, mensuradas pela frequência de sua menção ao longo das discussões.
A coleta de dados por meio de entrevistas e grupos focais realizou-se em ambiente virtual de videoconferência, visando assegurar a participação de stakeholders geograficamente dispersos pelo território nacional e otimizar os custos operacionais da pesquisa. As gravações em áudio foram obtidas mediante anuência prévia dos participantes, sendo posteriormente transcritas e submetidas à análise sistemática.
Stakeholders participantes na pesquisa de campo
A seleção dos participantes da pesquisa de campo buscou abranger a maior diversidade possível de stakeholders da AD.
Convidaram-se 80 profissionais para as entrevistas, registrando-se uma adesão de 20 participantes. Para a constituição dos grupos focais, foram contatados sete articuladores de diferentes segmentos do setor, obtendo-se a adesão de dois deles, o que viabilizou a realização de duas sessões.
A Figura 2 resume os stakeholders da AD participantes das entrevistas e dos grupos focais, detalhando o quantitativo de indivíduos por setor. Ao todo, a pesquisa de campo envolveu 28 participantes vinculados a 16 diferentes setores da AD. Embora a maioria atue prioritariamente nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Pará, alguns profissionais exercem funções de escopo nacional, agregando perspectivas de outras regiões do país.
Figura 2 — Stakeholders da AD e respectiva quantidade de participantes

Nota: elaborada pela autora.
O que os dados revelam
A análise integral das questões resultou no mapeamento de 583 menções de competências. Desse total, identificaram-se 254 competências com nomenclaturas distintas, cuja consolidação por similaridade semântica foi reservada para uma etapa posterior da pesquisa. Destaca-se que, nessa fase da análise, termos com aparente proximidade — a exemplo de "analisar e interpretar dados" (mencionada 20 vezes) e "interpretação de dados" (citada 5 vezes) — foram tratados distintamente.
As Figuras 3 e 4 sistematizam as competências citadas pelos participantes ao longo de todas as etapas da pesquisa de campo. Ao lado de cada termo catalogado, informa-se a respectiva frequência com que o conhecimento, a habilidade ou a atitude foi mencionado literalmente durante as interações.
Figura 3 - Competências mencionadas 20, 13, 11, 10, 9, 8, 7 e 6 vezes

Nota: elaborada pela autora.
Figura 4 - Competências mencionadas 5, 4 e 3 vezes

Fonte: elaborada pela autora.
Além dos conhecimentos, habilidades e atitudes mencionados nas figuras 3 e 4, outras competências foram citadas uma ou duas vezes na pesquisa de campo.
As competências tecnológicas e digitais destacaram-se como as mais frequentes ao longo de toda a pesquisa de campo. Dentre o conjunto catalogado, evidenciam-se os saberes relacionados à ciência de dados, a exemplo de análise e interpretação de dados, aplicação prática, big data, bancos de dados, extração de valor e processamento. Outras competências tecnológicas recorrentemente apontadas abrangeram inteligência artificial, programação, tecnologias da informação e comunicação (TIC), informática, ciência da computação, ferramentas de Business Intelligence (como Power BI) e algoritmos.
Durante as interações, ressaltou-se a necessidade de o engenheiro agrônomo dominar o processamento de dados e de imagens, além de noções de programação. Conforme apontado por um dos grupos focais, o profissional deve compreender a gestão de bancos de dados, bem como saber extrair, transmitir e transferir informações de maneira eficiente. A literatura de apoio corrobora esse diagnóstico ao ponderar que, embora os agricultores gerem grandes volumes de dados, o potencial analítico dessas informações permanece subaproveitado devido à escassez de tratamentos adequados. Consequentemente, o incremento da produtividade e a melhoria do desempenho ambiental encontram limitações associadas à deficiência na governança de dados e à carência de habilidades analíticas aplicadas ao contexto da produção agrícola.
As habilidades e os conhecimentos voltados à agricultura e às ciências naturais figuraram entre os mais citados na pesquisa de campo, englobando saberes como: agronomia, compreensão dos sistemas de produção, análise de favorabilidade a pragas e doenças, AP, mapas de produtividade, zootecnia, Sistemas de Informação Geográfica (GIS), ferramentas de georreferenciamento, imagens de satélite, telemetria, biologia e aplicação de sensoriamento remoto. Conforme pontuado por um dos participantes, a AD exige que áreas de conhecimento aparentemente distintas — a exemplo da biologia, da geoestatística e do georreferenciamento — atuem integradamente.
Nesse contexto, apontou-se que os conhecimentos conceituais e experienciais vinculados à agronomia permanecem fundamentais, sendo o aproveitamento pleno das soluções digitais diretamente dependente da sólida formação agronômica e do domínio prático da produção agrícola. Paralelamente, alertou-se para o risco de distanciamento das novas gerações de produtores em relação ao manejo prático de campo, fenômeno impulsionado pela hiperdigitalização, o qual pode comprometer o repertório vivencial indispensável à condução bem-sucedida da atividade agropecuária.
Ademais, registrou-se a preocupação de diversos entrevistados quanto ao conhecimento limitado demonstrado por algumas start-ups de tecnologia em relação aos processos reais de produção agrícola, fator que, segundo os profissionais, pode prejudicar a aplicabilidade e a eficácia das soluções digitais desenvolvidas para o setor.
As competências cognitivas — como o pensamento analítico, crítico e sistêmico, o raciocínio matemático e estatístico, a proficiência em língua portuguesa e conhecimentos em idiomas estrangeiros (como inglês e alemão), a tomada de decisão e a capacidade de articular múltiplos campos de conhecimento — foram apontadas como fundamentais no contexto da AP e da AD.
A relevância do pensamento sistêmico é corroborada pelo relato de um dos entrevistados, que enfatiza a necessidade de validação prática das inovações tecnológicas no setor agrícola. Ademais, embora se destaque a exigência de habilidades analíticas, participantes de um grupo focal alertam que, na prática, o tratamento dos dados gerados por implementos agrícolas recai atualmente majoritariamente sobre equipes vinculadas a grandes produtores rurais.
As habilidades de gestão foram indicadas pelos participantes como necessárias para a AD. Um entrevistado destaca que algumas dificuldades dos jovens empreendedores que atuam no desenvolvimento de tecnologias digitais para o setor agrícola poderiam ser evitadas caso tivessem prévia experiência administrativa em empresas. Outro entrevistado destaca a gestão integral do negócio, exigindo a capacidade de auditar processos, identificar falhas operacionais e monitorar desvios orçamentários com precisão. Um grupo focal explica que a agricultura contemporânea exige a ampliação da visão para além da porteira, abrangendo o domínio de processos voltados ao mercado e à conformidade. Alguns autores explicam que, no contexto da AD e AP, os agricultores assumem um papel essencialmente empresarial, embora nem sempre possuam competências de gestão consolidadas. Nesse cenário, o planejamento, a modelagem de negócios e a gestão estratégica configuram-se como habilidades fundamentais para a atividade agrícola, condicionando o sucesso tecnológico à integração entre capacidades técnicas e habilidades gerenciais.
As competências sociais — tais como comunicação, trabalho em equipe, colaboração interdisciplinar e negociação — e as competências pessoais — a exemplo de liderança, curiosidade, aprendizado contínuo e proatividade — foram apontadas pelos participantes como essenciais no contexto da AD, corroborando achados da literatura sobre a Indústria 4.0. Entre essas atribuições, a liderança destacou-se de maneira particular, sendo associada por estudiosos à capacidade de inovar, introduzir novas tecnologias na produção agrícola, fomentar o desenvolvimento sustentável e ampliar a produtividade no setor. Ademais, parte da literatura reforça que a habilidade de comunicação, pautada em empatia, integridade e honestidade, figura como a principal competência profissional demandada no setor agroalimentar.
Conclusão
As competências apontadas pelos participantes na pesquisa de campo distribuem-se por diversas áreas do conhecimento. Tal dispersão corrobora a percepção de múltiplos entrevistados de que a agricultura digital demanda dos profissionais uma perspectiva multidisciplinar, sendo a formação de equipes multidisciplinares nos diversos setores da AD uma solução amplamente compartilhada.
A identificação das competências necessárias para atuar no setor constitui uma etapa inicial na construção de soluções para a escassez de mão de obra qualificada no contexto da agricultura digital, visto que pode subsidiar a revisão de currículos em cursos de formação ou aperfeiçoamento, bem como a elaboração de novos programas alinhados às necessidades do setor. No entanto, faz-se necessário organizar os conhecimentos, habilidades e atitudes em estruturas de competências específicas para cada stakeholder ou segmento da AD. Além disso, é preciso relacionar as competências requeridas a cada ocupação e estipular o respectivo grau de proficiência exigido.
A elaboração de programas de formação ou de capacitação profissional que contemplem o desenvolvimento integrado de conhecimentos, habilidades e atitudes indispensáveis à atuação na AD constitui uma estratégia capaz de otimizar o tempo para a obtenção de resultados.
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